TESTES

by João Zeferino on 21 Dezembro 2010 00:00Martin Logan Ethos

Transparência e Resolução!

Ele há coincidências curiosas. As colunas de painel foram durante mais de uma década o «ai Jesus» da audiófilia informada.

As Ethos foram instaladas na minha sala de audições e ligadas ao sistema habitual com o leitor de CD’s Audionet ART G2+EPS, gira-discos Michell Gyrodec, Rega RB300 e célula Benz Micro Glider, prévio de phono Plinius M14, amplificação Mark Levinson 326S/432 e cablagem Nordost Heimdall, Frey e Red Down Rev.II nas colunas.

As Martin Logan respondem de forma óbvia a pequenas alterações de posicionamento, de modo que exigem algum tempo de dedicação até encontrar a melhor posição de funcionamento. No caso da minha sala, com uma área de pouco mais de 11 m2, mais do que o painel foi a poderosa resposta das unidades de graves que levantou os maiores problemas. Seguindo as dicas do excelente manual, acabei por optar por uma posição com as colunas instaladas a cerca de 80 cm da parede traseira e 55 cm das laterais, medidos a partir do centro do painel, com uma ligeira inclinação de cerca de 10o a 15o para o local de escuta e -8 dB no potenciómetro de regulação do grave. Após a colocação dos espigões, foi possível subir uns pontos até aos -6 dB, já que o grave passou a exibir uma muito maior firmeza e recorte com os espigões instalados.

O registo grave das Ethos pauta-se por uma apresentação voluntariosa e extrovertida, o que não deixa de ser surpreendente em face das dimensões da caixa. Não só denota uma extensão assinalável, capaz de revelar a imponência da caixa do contrabaixo, a ressonância do piano ou a escala dos timbalões da orquestra, como também é suficientemente rápido e tenso de modo a imprimir à reprodução musical um sentido rítmico ágil e bem articulado. A assinalável extensão e poder do grave podem por vezes tornar demasiado óbvio o que deveria ser apenas sugerido, fazendo com que a reprodução musical seja acompanhada de uma presença de muito baixas frequências algo indistinta que contribui para a grandiosidade do palco sonoro mas que pode tornar-se demasiado pertinente em espaços confinados. Resulta daqui a importância da regulação da intensidade do grave e da utilização das Ethos em espaço livre. Na minha sala de audições consegui encontrar facilmente o ponto de equilíbrio com música acústica, sinfónica e jazz, ainda que com os ritmos mais pop não fosse possível eliminar totalmente uma certa pegada do funcionamento do woofer, que permanecia sempre audível.

A gama média e o agudo são, sim- plesmente, transparentes. A capacidade que as Ethos têm para desenhar a imagem de uma grande orquestra sinfónica tem algo de único e dificilmente imitável. O palco sonoro espraia-se pelas três dimensões de um modo totalmente solto, com uma óptima definição lateral e com uma altura de palco notável, resultando numa excelente re- criação do ambiente em que foram feitas as gravações e contribuindo para uma sensação de envolvimento e de realismo verdadeiramente notáveis. O facto de o painel ser responsável pela reprodução de todo o espectro de frequências a partir dos 375 Hz resulta numa uniformidade e coerência tímbrica que facultam uma re- produção de vozes como raramente tenho ouvido. Por comparação com muitas colunas de caixa, a gama média das Ethos não exibe a ênfase que projecta as vozes para uma posição frontal, pelo contrário, pode até soar ligeiramente escorreita, mas dá às vozes masculinas e femininas a mesma importância relativa e coloca-as no mesmo patamar com uma clareza e uma pureza de dicção que configuraram uma experiência única na minha carreira de crítico de áudio. A transparência e elevada resolução do painel fazem milagres com gravações de qualidade, contudo, tornam-nas pouco tolerantes a gravações de má qualidade, o que acaba por não ser novidade, já que esta é uma característica quase sempre associada à elevada resolução.

A questão do casamento entre as unidades dinâmicas e o painel há muito que foi resolvida pela Martin Logan. Nas Ethos não foram detectadas quaisquer descontinuidades entre as unidades. O woo- fer responde rapidamente e de forma articulada às solicitações do sinal musical, acompanhando a fulgurante resposta do painel no que respeita à soltura, clareza e definição. Muito embora a qualidade absoluta da caixa de graves não esteja ao mesmo nível da soberba qualidade do painel, o resultado global é um som sólido, vigoroso e dinâmico, capaz de fazer justiça às mais complexas obras sinfónicas, com um discernimento ao nível do timbre, do detalhe fino e da capacidade discriminativa dos diversos intervenientes que proporciona um carácter de realismo e envolvência total do ouvinte no processo de reprodução musical, no final de contas aquilo que todos procuramos aquando da audição de música.

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